ABCDLibrary

Grupo de Trabalho do ABCD

ABCD DO BIBLIOTECÁRIO NA AUTOMAÇÃO DA BIBLIOTECA

Por: Fernando Modesto

[Agosto/2013]

A minha geração foi alfabetizada no abecedário do caminho suave. Aliás, pela cartilha Caminho Suave, que associava objetos e animais com as letras do alfabeto, procurando tornar a alfabetização mais assimilável. Toma-se este modelo para observar que a automação da biblioteca pode ter um caminho suave, assimilável, não como a metodologia da cartilha, mas menos dolorosa, se os recursos tecnológicos forem poderosos nas possibilidades de criação das estruturas documentais e simples na sua operacionalização e manutenção.

Neste sentido, cita-se uma verdadeira cartilha de aprendizado tecnológico para o bibliotecário brasileiro e comentado, nesta coluna, sob o título: O CDS/ISIS MORREU? VIVA O CDS/ISIS LIVRE, o software CDS/ISIS (Computarized Documentation System / Integrated Set for Information System), popularmente conhecido como Microisis (versões MS/DOS) e Winisis (versões MS/Windows). Foi um sistema inicialmente promovido pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) para apoiar projetos de informatização de bibliotecas nos países em desenvolvimento. Teve e ainda tem impactos significativos nestes sistemas de informação registrada. A começar por ser o CDS/ISIS, um dos primeiros pacotes de bancos de dados que funcionavam em disquetes, e que ofereciam capacidade de indexação e armazenamento eficiente. A partir da sua versão 2.3 tornou-se orientado por menus, e na sua terceira versão oferecia plena capacidade de operação em rede com proteção de dados, registro e índice multiusuário. O software também incorpora uma linguagem de programação interna (CDS/ISIS Pascal), permitindo o desenvolvimento de funções locais para manipulação de dados, e mesmo para a criação de interfaces independentes. O CDS/ISIS, por sua inovação e estrutura era e é um modelo precursor do software aberto. Arrisco dizer que é inovador e poderoso até hoje, até por operar sob baixa configuração de hardware.

Nos últimos anos, o software passou a ser de código aberto (distribuída nos termos da licença LGPL terceira versão), sendo reconfigurado e adotando nova denominação: ABCD. Com os novos recursos agregados torna-se uma suíte completa para a gestão de serviços de informação documental.

Apesar de existirem outras tentativas de oferecer soluções integradas para bibliotecas baseadas no ISIS, as tentativas ainda não lograram alcançar o nível do ABCD na sua intenção de apresentar uma tecnologia inovada sem romper com a típica comunidade de usuários Isis.

A sigla ABCD é um acrônimo para Automatização de Bibliotecas e Centros de Documentação, o que ilustra o seu objetivo essencial, ou seja, fornecer uma ferramenta para automação de serviços de informação documental. Além de algumas características especiais não muito comuns para um software usado em biblioteca, e que são inerentes à tecnologia de banco de dados Isis; bem como a de oferecer muitas ferramentas em uma só plataforma. Este aspecto também decorre do compromisso com a política do controle bibliográfico universal promovido pela UNESCO e, ao mesmo tempo, servir a gestão de documentos.

O programa adota padrões amplamente utilizados como: MARC21, UNIMARC (Universal MARC), CEPAL (Comisión Económica para América Latina y el Caribe, formato bibliográfico latino muito popular), e LILACS (Literatura Latino-Americana em Ciências da Saúde), bem como estruturas não-bibliográficas. Facilita a criação de qualquer estrutura de dados, e o seu posterior gerenciamento (catalogação, OPAC e circulação). Essa característica indica que, além de bibliotecas e centros de documentação, também arquivos e museus, e outros serviços de informação documentais podem usar o software na manutenção de suas próprias estruturas de informação, e na integração de suas diferentes funções em um sistema baseado na web. Neste aspecto, o programa oferece capacidade multimídia e a manipulação de documento eletrônico completo, o que o transforma em recurso poderoso para a construção de bibliotecas digitais.

O ABCD, lançado em 2009, é um programa desenvolvido e mantido pela BIREME (OMS, Brasil), que contou com a contribuição da Flemish Interuniversity Council´s Developement Cooperation (VLIR-UOS), Bélgica, que decidiu apoiar o desenvolvimento do ABCD através de seu projeto DOCBIBLAS (Development Of and Capacity Building in ISISBased Library Automation Systems), incluindo requisitos para permitir a utilização por bibliotecas universitárias, tais como os formatos bibliográficos: MARC, MODS (Metadata Object Description Schema), METS (Metadata Encoding and Transmission Standard) e o protocolo Z39.50 etc. Além disso, o ABCD conta com a colaboração de outras pessoas e instituições que podem ser visualizadas no Hall of Fame of ABCD.

As características para bibliotecas

Em geral, as bibliotecas de países em desenvolvimento e, em especial, as bibliotecas brasileiras precisam de um software que não requeira esforços de programação na sua operação. Assim, o ABCD é projetado como uma ferramenta para profissionais de informação (bibliotecários, arquivistas, museólogos) e não para tecnólogos em TI (tecnologia da informação). O programa inclui em sua operacionalização todas as definições típicas do sistema ISIS, como Tabela de Definição de Campo, Tabela de Seleção de Campo e a Linguagem de Formatação; o que permite à equipe da biblioteca, manipular dados de seus bancos de dados de forma granular com a finalidade de manter um controle do mesmo. O software também fornece instruções de ajuda na sua operação.

Com base no texto de Dhamdhere, algumas outras características técnicas do ABCD, que devem interessar aos bibliotecários, são listadas em complemento às mencionadas acima:

§ É baseado na web e pode ser usado e gerenciado a partir de qualquer navegador.

§ As funções de gestão da biblioteca são integradas usando a mesma interface e bancos de dados.

§ OPAC com interface simples busca, bem como recurso de busca avançada com operadores booleanos entre outros.

§ Acesso a documento físico e eletrônico (local ou na internet) com a mesma interface.

§ Permite definir, copiar ou editar qualquer nova estrutura de banco de dados com aplicações ISIS existentes, tais como os formatos de intercâmbio bibliográficos e de metadados no padrão Dublin Core.

§ Disponível em versões para vários idiomas como inglês, francês, espanhol, português, além outros idiomas em desenvolvimento.

§ Importa e exporta dados em formato ISO-2709 ou formato texto.

§ Conteúdo e recursos bibliográficos, locais e externos, podem ser facilmente adicionados sem necessidade de programação em linguagem HTML.

§ O módulo de empréstimo básico oferece uma definição detalhada de categorias de objetos e de usuários e políticas e calendários para cada combinação, enquanto o módulo avançado adiciona procedimento de reserva, a página “minha biblioteca“.

§ Gestão de publicações seriadas com a adoção do padrão ISSN e a função de catálogo coletivo.

§ Geração de relatórios estatísticos com a apresentação gráfica de qualquer conjunto definido de variáveis dos bancos de dados.

§ Os registros ISIS carregam individualmente sua descrição estrutural como um “cabeçalho” embutido, diferente da tabela baseada em bancos de dados relacionais onde os registros da mesma tabela compartilham a mesma estrutura por necessidade.

§ Possui o próprio servidor de OAI-PMH, permitindo a coleta de registros em outros serviços não-ISIS, baseados na web.

O ABCD é um ‘pacote’ cooperativo e, também, um pacote de software independente. Neste sentido o módulo ‘central’ contém o ‘coração’ do sistema com as funções essenciais de automação de biblioteca, permitindo às pequenas bibliotecas se automatizarem totalmente com alguma competência tecnológica. Como a maioria dos usuários do ABCD provem do ambiente familiar do ISIS, acabam por aproveitar essa experiência significativa de desenvolvimento local de suas estruturas de banco de dados e formatos de impressão ou mesmo as habilidades desenvolvidas no uso da linguagem de formatação. Aspectos que podem ser reutilizados na migração para o ABCD.

Para a instalação do programa ABCD, a orientação pode ser obtida no endereço: http://reddes.bvsaude.org/projects/abcd. Onde documentos em inglês e espanhol detalham os procedimentos. Também instruções sobre operação do sistema podem ser obtidas no endereço: http://wiki.bireme.org/es/index.php/ABCD.

Versões do software podem ser baixadas do site do projeto Suíte Saber, que é uma proposta de desenvolver, com base no ABCD, um conjunto de soluções, composta pelos módulos de catalogação, pesquisa e circulação para o gerenciamento automatizado de bibliotecas e arquivos. Da mesma forma, na página download do ABCD é possível baixar o programa, acompanhado de manuais de apoio para instalação, configuração e operação de módulos, além da opção de escolha para sistema operacional Windows ou Linux.

Aos bibliotecários que buscam um software compatível com os serviços bibliotecários o ABCD é a opção de baixo custo. Neste sentido, fica difícil compreender a existência de bibliotecas que optam por sistemas não customizados nos padrões bibliográficos da área. Ainda mais, se for biblioteca pública, escolar ou universitária. Nesta situação, as opções dos usuários em termos de acesso à informação ficam restritas.

Lembra-se aos bibliotecários iniciantes na profissão, que a comunidade de usuários ISIS, agora também ABCD, é ativa, e costumam promover reuniões frequentes. Para informar-se de ocorrências da mesma, deve-se contatar a Associação de Bibliotecários local, ou o Conselho Regional de Biblioteconomia, da região.

Quanto à indicação de leitura lista-se algumas referências que podem ajudar na obtenção de maiores informações sobre o ABCD, em especial sobre as suas características de aplicação, operação, instalação e configuração.

Indicação de Leitura:

ABCD projeto. RedDes – Red de Desarrolladores de las Redes BVS, SciElo y ScienTI. Disponível em: http://reddes.bvsaude.org/projects/abcd/wiki/WikiStart Acesso em: 19/07/2013.

ABCD. UNESCO: Comunicação e Informação. Disponível em: http://www.unesco.org/new/en/communication-and-information/access-to-knowledge/free-and-open-source-software-foss/abcd/ Acesso em: 20/07/2013.

Características e Módulos de ABCD. RedDes – Red de Desarrolladores de las Redes BVS, SciElo y ScienTI. Disponível em: http://reddes.bvsaude.org/projects/abcd/wiki/Features Acesso em: 19/07/2013.

De Smet, E. Some ISIS – software history and technical background on the new FOSS integrated library system ABCD. Liber Quarterly: the Journal of European Research Libraries, 19:3/4(2010). Disponível em: http://liber.library.uu.nl/index.php/lq/issue/view/465 Acesso em: 18/07/2013.

De Smet, E.; Spinak, E. The abc of ABCD: the Reference Manual. BVS Salud. Disponível em: http://bvsmodelo.bvsalud.org/download/abcd/manuais/ABCofABCD-EN-Provisional.pdf Acesso em 20/07/2013.

Dhamdhere, S. N. ABCD, an Open Source Software for Modern Libraries. Chinese Librarianship: an International Electronic Journal, 32. Disponível em: http://www.iclc.us/cliej/cl32dhamdhere.pdf Acesso em 19/07/2013.

Guilherme, R. C. ABCD: Automação de Bibliotecas e Centros de Documentação. Control. Disponível em: http://www.ufrgs.br/cabam/files/ABCD,%20Roger%20Craveiro%20Guilherme.pdf Acesso em: 24/07/2013.

Hübner, E.; Guilherme, R. C. Software livre para bibliotecas: uma ferramenta para a democratização do acesso à informação bibliográfica. FGV/Bibliodata. Disponível em: http://www8.fgv.br/bibliodata/geral/docs/software_livre_para_bibliotecas.pdf Acesso em: 24/07/2013.

Portal ABCD. Oráculo. Disponível em: http://www.oraculo.inf.br/index.php?title=Portal:ABCD Acesso em: 20/07/2013.

Fonte: http://www.ofaj.com.br/colunas_conteudo_print.php?cod=766

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